Fundamentos

Os selos que já existem: Angus on Dairy e Canchim on Dairy

O Brasil tem dois selos para cruzamento em rebanho leiteiro, ambos com menos de dois anos. Um deles não foi feito para a sua vaca. Nenhum dos dois publicou dados de progênie ainda.

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Até 2025, o Brasil discutia Beef on Dairy sem nenhum instrumento formal. Em pouco mais de um ano surgiram dois. Vale conhecer o que cada um é, o que exige e — sobretudo — para qual vaca foi desenhado, porque nesse ponto eles diferem de forma que muda a decisão do produtor.


Angus on Dairy

Lançado na 48ª Expointer, em Esteio (RS), em 1º de setembro de 2025, pela Associação Brasileira de Angus em parceria com a Embrapa.

Como funciona. É um selo de certificação de touros, operado via PROMEBO e ANC — o Herdbook Collares. Seleciona reprodutores por características de crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça.

Estrutura. Traz subselos distintos, um para Holandês e outro para Jersey.

E aqui está a informação que mais importa para o leitor deste site: o Angus on Dairy foi lançado para matriz Holandesa e Jersey, não para Girolando.

Não é uma crítica ao programa — é uma delimitação de escopo que o produtor precisa saber antes de assumir que o selo cobre o rebanho dele. Quem tem Girolando e usa Angus está fazendo um cruzamento perfeitamente legítimo, com a raça paterna mais usada do mundo em beef-on-dairy. Só não está automaticamente dentro do programa.


Canchim on Dairy

Publicado em 2026 na Circular Técnica 90 da Embrapa Pecuária Sudeste, por Marcondes, Cardoso, Yokoo, Carvalho e Panetto, em parceria com a ABCCAN, a ANC e o PROMEBO.

Por que ele é diferente. Até onde este site apurou, é o único documento oficial brasileiro que vincula explicitamente touro de corte a matriz Girolando e mestiça Holandês × Zebu. É o selo que foi desenhado para a vaca da maioria dos produtores brasileiros.

A raça. Canchim é sintético: 5/8 Charolês e 3/8 Zebu. O argumento central do programa é que ele cobre a campo sob sol forte, ao contrário das taurinas britânicas, que no Brasil tropical dependem quase exclusivamente de inseminação artificial.

Os critérios de certificação, expressos em Decas de DEP — quanto menor o Deca, melhor a posição na distribuição:

Característica Exigência
Peso ao nascer Deca ≤ 4 (top 40%) — para evitar distocia
Ganho pré-desmama Deca ≤ 5
Ganho pós-desmama Deca ≤ 5
Conformação ao sobreano Deca ≤ 3
Tamanho ao sobreano Deca 3 a 5
Área de olho de lombo ao sobreano Deca ≤ 4

Repare na lógica: peso ao nascer é o critério mais restritivo de todos, e tamanho ao sobreano é o único com teto — o programa não quer o maior animal possível, quer um animal de tamanho controlado. As duas coisas dizem a mesma coisa: parto fácil na vaca leiteira vem antes de qualquer ganho de carcaça.


O que os dois selos ainda não têm

Aqui é preciso ser direto, porque a comunicação em torno dos dois programas mistura o que já foi medido com o que se projeta.

Nenhum dos dois publicou dados de progênie. Ambos são, hoje, índices de seleção de touros — instrumentos legítimos e bem construídos, mas que ainda não apresentaram resultados de filhos nascidos, criados e abatidos sob os respectivos selos.

As projeções do Canchim on Dairy são extrapolações. A previsão de superar o Nelore em 10% a 15% no peso à desmama vem de estudos de Canchim × Nelore, não de medições sobre Girolando. A própria comunicação do programa usa enquadramento projetivo — "projeta elevar" —, o que é honesto, mas se perde quando o número é repetido de terceira mão.

O piloto de campo está em andamento. O projeto "Leite + Carne Canchim", em Patrocínio do Muriaé, na Zona da Mata mineira, começou em 2025 sobre vacas mestiças Holandês × Zebu, com meta de 200 bezerros em dois anos e meio. Os resultados de progênie ainda não foram publicados — e são, provavelmente, o dado mais aguardado do assunto no Brasil.


Quem ficou de fora

Não existe selo para cruzamento leiteiro com Simental, Simbrasil, Pardo-Suíço, Limousin ou qualquer outra raça.

E, no caso do Simental e do Simbrasil, há um obstáculo adicional que vale conhecer: o padrão de pelagem do Simbrasil é avermelhado com manchas brancas ou amareladas, o que exclui automaticamente esses animais do Carne Angus Certificada, cujo critério é fenotípico.

Consequência prática: um macho de cruzamento com Simental sobre matriz leiteira compete hoje no mercado de peso, não no mercado de prêmio por qualidade. Pode ser um bom negócio — mas é um negócio de arroba, não de selo.


Como usar essa informação

Se você tem Holandesa ou Jersey e quer certificação: o Angus on Dairy é o caminho existente.

Se você tem Girolando ou mestiça Holandês × Zebu: o Canchim on Dairy é o único selo desenhado para a sua matriz, e vale acompanhar os resultados do piloto de Patrocínio do Muriaé antes de dimensionar expectativa.

Se você usa Angus sobre Girolando: é um cruzamento sólido, com a melhor raça paterna do mundo para marmoreio e maciez e o menor risco de distocia entre as de corte. Só verifique com o seu comprador se o animal entra em alguma grade de prêmio — porque a pelagem e a conformação decidem isso, e cruzado leiteiro tem histórico de ser penalizado na tipificação.

Se você usa Simental ou Simbrasil: hoje não há selo. O produto vale por peso e rendimento, e a decisão precisa fechar nessa base.

Em qualquer caso: os critérios do Canchim on Dairy servem como referência mesmo para quem não vai certificar. Peso ao nascer no topo da distribuição, tamanho ao sobreano com teto, conformação alta. É um bom filtro para escolher touro de qualquer raça sobre vaca leiteira.


O resumo

São dois selos, ambos recentes, ambos de seleção de touro.

Angus on Dairy foi feito para Holandês e Jersey. Canchim on Dairy é o único que mira Girolando.

Nenhum publicou dados de progênie, e as projeções do Canchim são extrapoladas de estudos sobre Nelore.

Simental, Simbrasil e Pardo-Suíço não têm selo — e a pelagem do Simbrasil exclui do Carne Angus Certificada.


Fontes

Marcondes, C.R.; Cardoso, F.F.; Yokoo, M.J.-I.; Carvalho, H.G.; Panetto, J.C.C. (2026), Selo "Canchim on Dairy": certificação de touros para cruzamento em rebanhos leiteiros no Brasil, Circular Técnica 90, Embrapa Pecuária Sudeste, ISSN 1516-411X · Associação Brasileira de Angus, lançamento do selo Angus on Dairy na 48ª Expointer, Esteio/RS, 1º/09/2025 · Novo, A. et al. (2022; 2023), Relatórios de Impacto, Embrapa · ABCRSS, padrão de pelagem do Simbrasil · Especificação USDA para programas de influência Angus.

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