Quem procura números sobre raça paterna em rebanho leiteiro encontra bastante coisa. Quem verifica de onde vieram encontra um problema.
Este artigo faz as duas coisas: apresenta os dados como eles são e diz, com a mesma clareza, até onde eles chegam.
As quatro bases que sustentam o assunto
Praticamente tudo o que se afirma no mundo sobre beef-on-dairy vem de quatro fontes. Vale conhecê-las, porque a qualidade delas é o que dá peso ao que segue.
Irlanda (Teagasc/ICBF). A maior de todas: até 977.037 progênies para desempenho ao parto, 79.903 para preço do bezerro e 103.175 para características de carcaça, com touros Holandês, Angus, Aubrac, Azul Belga, Charolês, Hereford, Limousin, Salers e Simental.
Suécia. Cerca de 1,6 milhão de registros de parto e mais de 1,1 milhão de carcaças de abatedouros comerciais, com matrizes Swedish Red e Holandesa.
Penn State (EUA). 262 machos filhos de vacas Holandesas, em 10 fazendas, por sete raças paternas — Angus, Red Angus, Charolês, Limousin, Hereford, Simental e Wagyu — criados em protocolo único. É o estudo controlado mais limpo do conjunto.
Itália (grupo de Bittante). Estudos controlados com Piemontês e Azul Belga sobre matrizes leiteiras e de dupla aptidão.
A revisão que organiza tudo isso é a de Berry (2021), no Journal of Dairy Science.
O que os dados dizem sobre o macho
Ganho, marmoreio e maciez (Penn State, confinamento, n=262)
| Raça paterna | GMD (kg/d) | Marmoreio | Maciez WBSF (kg) |
|---|---|---|---|
| Angus | 1,62–1,76 | 4,82 | 3,82 (mais macia) |
| Red Angus | ~8,6% abaixo do Angus | 5,03 (maior) | — |
| Charolês | 1,73 | 4,71 | 4,30 |
| Simental | 1,68 | 4,50 | 4,51 (menos macia) |
| Limousin | 1,55 | 4,14 (menor) | 3,70 |
| Hereford | na faixa superior | intermediário | 3,83 |
| Wagyu | 1,39 (menor) | alto | — |
Um ensaio independente da Universidade de Minnesota, com 50 animais, confirmou a direção: marmoreio de 616,9 no Angus, contra 521,3 no Charolês, 547,1 no Simental e 426,9 no Limousin.
Carcaça e parto (base irlandesa)
| Raça paterna | Peso de carcaça (kg) | Chance de distocia (vs Holandês) | Gestação (dias) |
|---|---|---|---|
| Azul Belga | 363,2 | 4,77× | — |
| Angus | 327,1 | 1,43× | 282,3 |
| Limousin | — | — | 287,4 |
| Holandês puro (referência) | 322,4 | 1,00 | — |
Na base sueca, o cruzamento com touros de corte — sobretudo de raças tardias — elevou a conformação de carcaça em até 67% e o ganho de carcaça em até 17%, com efeito mais forte em machos jovens inteiros.
E o preço
A diferença de preço de venda do bezerro entre raças paternas chegou a € 125,4 na base irlandesa: o Angus foi o mais barato e o Charolês o mais caro.
Mas carcaça não é lucro. O material técnico do Teagasc/ICBF registra que touros Angus e Hereford geram, em média, € 37 a mais de lucro por bezerro nascido de vaca leiteira do que a progênie de Azul Belga — apesar de carcaça inferior. Parto e gestação pesam mais na conta do que conformação.
A hierarquia de carcaça e a hierarquia de lucro não são a mesma lista. Quem apresenta só a primeira induz ao erro.
O que os dados dizem sobre a vaca
Quase toda a discussão mede o bezerro. Um estudo irlandês com 346.765 partos de 230.255 vacas Holandesas em 3.604 rebanhos mediu o que o parto custa à mãe.
| Raça paterna do bezerro | Queda de leite em 305 dias (kg) | Prenhez aos 42 dias |
|---|---|---|
| Hereford | −36,7 | 0,55 |
| Simental | −43,3 | 0,58 |
| Angus | −45,2 | 0,57 |
| Limousin | −51,5 | 0,57 |
| Azul Belga | −65,4 | 0,50 |
| Charolês | −101,1 | 0,42 |
O Simental teve a menor depressão de leite entre as continentais e a maior taxa de prenhez do conjunto. Ressalva necessária: o erro-padrão do Simental nessa base é alto (23,4) e ele não se separa estatisticamente do Angus. Separa-se do Charolês com folga.
O dado que quase ninguém usa
Há um experimento italiano que testa a variável mais esquecida: a matriz.
Com o mesmo touro Azul Belga, compararam-se produtos de matriz Pardo-Suíça — leiteira especializada — contra produtos de matrizes Simmental e Rendena, de dupla aptidão. Resultado: os produtos de matriz leiteira saíram 1,2% mais altos, com escore de músculo 6% menor a campo, 5% menor na carcaça e 13% mais osso.
Com o touro controlado, a base materna de dupla aptidão entregou melhor carcaça. É o desenho experimental que isola exatamente a questão, e o resultado é favorável à dupla aptidão.
Agora a parte incômoda
Tudo acima foi medido sobre matriz Holandesa ou Swedish Red, em clima temperado, em sistemas majoritariamente confinados.
A literatura brasileira farta sobre cruzamento é sobre matriz Nelore, não leiteira. Há bons trabalhos — Canchim, Nelore e mestiços superprecoces com rendimento de carcaça de 58,75% no Nelore; Canchim e Aberdeen Angus e seus cruzamentos recíprocos em Ponta Grossa; F1 Angus × Nelore superando o Nelore puro em 25,9 kg aos 365 dias e 34,8 kg aos 550. E há um resultado que interessa diretamente a este site: novilhas tricross ¼ Simental × ¼ Nelore × ¼ Angus atingiram 57% de rendimento de carcaça quente, o maior do experimento, sem diferir das ⅝ Simental × ⅜ Nelore, com 56%.
Mas nada disso é touro de corte sobre matriz leiteira brasileira.
Não existe estudo brasileiro controlado, publicado e revisado por pares, com dados de progênie de touro de corte sobre matriz Girolando. Os dois selos nacionais são de 2025 e 2026 e ainda não publicaram progênie. O piloto de campo mais avançado, em Patrocínio do Muriaé, começou em 2025 com meta de 200 bezerros em dois anos e meio.
O que dá para afirmar e o que não dá
Pode afirmar:
- Angus e Red Angus entregam o melhor marmoreio e a carne mais macia entre as raças testadas.
- Angus tem o menor risco de distocia e a gestação mais curta entre as de corte.
- Continentais e dupla musculatura entregam mais peso e conformação de carcaça, com maior risco de parto.
- O Charolês é o que mais cobra da vaca em leite e prenhez.
- A base materna de dupla aptidão melhora a carcaça do produto, com touro controlado.
- Carcaça superior não implica lucro superior.
Não pode afirmar:
- Que qualquer desses números vale para matriz Girolando. O mecanismo transfere; a magnitude não está medida.
- Que uma raça taurina é melhor que outra na mesma fração de sangue, sob calor ou a pasto. Essa comparação não existe.
- Que o desempenho medido em confinamento temperado se reproduz em recria a pasto tropical.
Duas ausências específicas que atrapalham a decisão no Brasil:
- Não há série pública de preços separando bezerro cruzado de origem leiteira por raça paterna.
- Não há estudos de uso terminal de Chianina, Marchigiana, Brahman, Nelore, Guzerá ou Sindi sobre matriz leiteira especializada.
Como usar isso
Trate os números internacionais como ordenação confiável e magnitude aproximada. A hierarquia entre raças provavelmente se mantém no Brasil; os valores absolutos, não.
E resolva localmente a única variável que ninguém pode resolver por você: quanto o seu comprador paga por marmoreio e quanto paga por peso. É esse diferencial que decide entre a coluna do Angus e a coluna dos continentais — e ele é da sua praça, não da Irlanda.
Fontes
Berry, D.P. (2021), Journal of Dairy Science 104(4):3789–3819 · Berry & Ring (2020), base ICBF · Basiel, B.L.; Campbell, J.A.; Dechow, C.D.; Felix, T.L. (2024), Translational Animal Science 8:txae043 · Eriksson, S. et al. (2020), Livestock Science · Ivanković, A.; Bittante, G. et al. (2018), Italian Journal of Animal Science · Sharpe, K.; Heins, B.J. (2025), Univ. Minnesota · Teagasc/ICBF, Identifying Profitable Beef Bulls for Use in Irish Dairy Herds · Rubiano, G.A.G. et al. (2009), Revista Brasileira de Zootecnia 38(12) · Perotto, D.; Moletta, J.L.; Cubas, A.C. (1999), Ciência Rural 29(2) · Muniz & Queiroz (1999) · Marcondes, C.R. et al. (2026), Circular Técnica 90, Embrapa Pecuária Sudeste.